Do mesmo modo que o sujeito passa a apreciar melhor a fotografia, fotografando, ou ver melhor um filme, filmando. Pois é ao olhar através de uma objetiva que você passa a perceber melhor a coisa.
É um outro tipo de olhar. A gente nem sonha enxergar daquele jeito até o momento em que você se depara com a experiência. Depois é lógico que o teu olhar passa a ser mais atencioso. Você aprende, ao olhar por uma objetiva, a manipular o teu próprio olhar. Uns mais, outros menos, como em tudo.
O mesmo acontece com a linguagem. Só que aí o teu mecanismo é outro. A linguística, acredito, é um deles. Você só passa a perceber, ou dar atenção a determinados fenômenos quando você chega mais perto da linguagem. Aproxima, isola uma caso, estuda-o mais minuciosamente, realizando uma espécie de operação como a do fotógrafo ou o diretor de cinema. Ou até mesmo a do cientista. Os procedimentos são muito parecidos: a observação é o método.
Outra vez eu vi um diretor de cinema - talvez isso seja normal mas para mim era novo - com uma lente através da qual, acredito, ele organizava e controlava toda a cena. É isso. A gente quando trabalha com a linguagem precisa desenvolver certos mecanismos que nos auxiliem a olhar melhor pros textos das mesma forma como fazem esses artistas. Não adianta pressa, a coisa nunca vem imediatamente, às vezes é necessário olhar muito pra algo pra poder extrair qualquer coisa dali. Observação é o método.
O problema que eu vejo hoje em dia é que existe muito artista. A gente deveria até é ficar contente mas, calculando bem, a gente até se chateia um pouco. O caso é que muita gente que taí, que ficou até famosa e tudo, não leva a coisa como deveria. O sujeito quer se tornar artista pra se distinguir dos outros. Pura vaidade. Deve ter muito caso assim. Pra ver mesmo precisaríamos encomendar a pesquisa pro IBGE.
Tudo bem, c'est normal, quanto produto de empresa porcaria não tá no mercado e é super aceito pela população, que compra, investe, confia, até a hora que descobre...? daí já viu.
Antes isso era um desafio. Muita gente querendo mais andar é pelas ruas mais conhecidas. Aquelas meio obscuras, com pouca gente... nevermore leonore. Poucos se importavam com distinção. Hoje não, a coisa mudou muito. Mundo é muito misturado. Hoje a turma tá querendo mais é se distinguir mesmo. Talvez por necessidade de conseguir mercado - não tá cheio de artista que vai lá pro ministério fazer campanha em benefício da classe?; parece até que se esquecem que somos subdesenvolvidos, como diz a ONU -, talvez por carência afetiva, ou então por vaidade mesmo. Qualé o problema?
De modo então que, com tanto artista por aí, fica até difícil identificar quem anda trabalhando legal mesmo. Que tá ali, carregando sua lente o tempo todo, observando a coisa de outros ângulos e dando o toque; que isso é mesmo o grande lance do artista, dar a ficha pras pessoas que ainda não tem a manha desse olhar.