quinta-feira, 12 de fevereiro de 2009

Parar e pensar um pouco

Do mesmo modo que o sujeito passa a apreciar melhor a fotografia, fotografando, ou ver melhor um filme, filmando. Pois é ao olhar através de uma objetiva que você passa a perceber melhor a coisa.

É um outro tipo de olhar. A gente nem sonha enxergar daquele jeito até o momento em que você se depara com a experiência. Depois é lógico que o teu olhar passa a ser mais atencioso. Você aprende, ao olhar por uma objetiva, a manipular o teu próprio olhar. Uns mais, outros menos, como em tudo.

O mesmo acontece com a linguagem. Só que aí o teu mecanismo é outro. A linguística, acredito, é um deles. Você só passa a perceber, ou dar atenção a determinados fenômenos quando você chega mais perto da linguagem. Aproxima, isola uma caso, estuda-o mais minuciosamente, realizando uma espécie de operação como a do fotógrafo ou o diretor de cinema. Ou até mesmo a do cientista. Os procedimentos são muito parecidos: a observação é o método.

Outra vez eu vi um diretor de cinema - talvez isso seja normal mas para mim era novo - com uma lente através da qual, acredito, ele organizava e controlava toda a cena. É isso. A gente quando trabalha  com a linguagem precisa desenvolver certos mecanismos que nos auxiliem a olhar melhor pros textos das mesma forma como fazem esses artistas. Não adianta pressa, a coisa nunca vem imediatamente, às vezes é necessário olhar muito pra algo pra poder extrair qualquer coisa dali. Observação é o método.

O problema que eu vejo hoje em dia é que existe muito artista. A gente deveria até é ficar contente mas, calculando bem, a gente até se chateia um pouco. O caso é que muita gente que taí, que ficou até famosa e tudo, não leva a coisa como deveria. O sujeito quer se tornar artista pra se distinguir dos outros. Pura vaidade. Deve ter muito caso assim. Pra ver mesmo precisaríamos encomendar a pesquisa pro IBGE. 

Tudo bem, c'est normal, quanto produto de empresa porcaria não tá no mercado e é super aceito pela população, que compra, investe, confia, até a hora que descobre...? daí já viu.

Antes isso era um desafio. Muita gente querendo mais andar é pelas ruas mais conhecidas. Aquelas meio obscuras, com pouca gente... nevermore leonore. Poucos se importavam com distinção. Hoje não, a coisa mudou muito. Mundo é muito misturado. Hoje a turma tá querendo mais é se distinguir mesmo. Talvez por necessidade de conseguir mercado - não tá cheio de artista que vai lá pro ministério fazer campanha em benefício da classe?; parece até que se esquecem que somos subdesenvolvidos, como diz a ONU -, talvez por carência afetiva, ou então por vaidade mesmo. Qualé o problema?

De modo então que, com tanto artista por aí, fica até difícil identificar quem anda trabalhando legal mesmo. Que tá ali, carregando sua lente o tempo todo, observando a coisa de outros ângulos e dando o toque; que isso é mesmo o grande lance do artista, dar a ficha pras pessoas que ainda não tem a manha desse olhar. 

quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Três poemas

A partir de agora
vou fazer silêncio

o que antes era
abalo císmico,
tornados
cataclismos,
fica suspenso.

mesmo um suspiro,
sugiro,
não faça 
nenhum movimento

até que então
eu possa,
arrancar tudo de dentro

que seja ódio,
que seja tédio,
qualquer sentimento

que agora 
já não importa nada,
esperemos o próximo vento.

*   *   *

Escrever sobre o nada.

Grafar em branco
 
- em linhas brancas -

a tormenta do silêncio,

o vácuo 

do tempo suspenso,

o núcleo do oco,

sem nada dentro.

*   *   *


   Não quero mais essa língua 
que míngua
quero uma língua ambígua
anti-narrativa
não mais essa língua antiga

Algo que vá
além do meu umbigo
que atravesse os cinco sentidos

Quem sabe,
um império de signos.




terça-feira, 29 de abril de 2008

Trabalho não faz mal a ninguém, e utopia também não...

Vejam só o que diz Breton:

"E não me venham  depois disso, falar do trabalho, quer dizer, do valor moral do trabalho. Sou forçado a aceitar a idéia do trabalho como necessidade material, e nesse aspecto sou o mais favorável possível à sua melhor, à sua mais justa repartição. Que ele me seja imposto pelas sinistras obrigações da vida, vá lá, mas que me peçam para acreditar nele, reverenciar o meu ou o dos outros, jamais. Prefiro, de novo, caminhar na noite e pensar que sou aquele que caminha de dia. De nada serve estarmos vivos durante o tempo em que trabalhamos. O acontecimento que cada um de nós está no direito de esperar que seja a revelação do sentido de sua própria vida, acontecimento que eu talvez ainda não tenha encontrado, mas no caminho do qual me procuro, não virá ao preço do trabalho."

Isso Breton escreveu há mais de 40 anos, em seu Nadja. Muitos outros artistas fizeram suas reflexões acerca do trabalho, mas creio que referem-se ao modelo de trabalho que se estabeleceu à partir da revolução industrial. O trabalho para o outro, para o detentor do capital - geralmente herdado da família abastada.

Simone de Beauvoir, tendo passado pela experiência de trabalhar como operária numa fábrica, dizia que ao bater o cartão, deixava com ele sua alma, que era posteriormente recolhida no fim do expediente.

Oswald de Andrade, acreditava que o progresso social adviria com a indústria, com as máquinas, pois estas, ocupando o papel de execução de certas tarefas, deixaria ao homem, tempo para exercitar o ócio, as coisas do espírito, etc... - o que não aconteceu, como sabemos-.

O poeta Roberto Piva, em depoimento num documentário de alguns anos atrás, diz em algum momento, com muita lucidez e tranqüilidade, que ele simplesmente não "deu certo", e justifica em seguida, "é claro que eu não dei certo, se eu tivesse dado certo, haveria alguma coisa errada". Prosseguindo em sua fala ele esclarece o que quer dizer com isso: numa sociedade fundada nos valores em que está fundada a nossa, essa idéia de "dar certo" é sempre um pouco suspeita. 

Quem é que dá certo, na sociedade em que vivemos? Grande parte de nossos artistas viveram e vivem na pindaíba, infelizmente. E eles são os reponsáveis por ventilar um pouco nossas nóias cotidianas e, em conseqüência disso, cuidam um pouco de nossa saúde mental. Acho isso um puta trabalho importante. Por isso concordo com Breton.

Por isso tudo creio na importância da arte. Ela não é um objeto de luxo como muitos julgam ser. Ela é necessária pois faz com que pensemos em novas possibilidades. Ela nos descondiciona - ou pelo menos deveria -  e faz com que olhemos para as coisas de formas diferentes. Não apenas para um sentido estabelecido, mas para a multiplicidade, para a polifonia.

Existem muitos "descondicionadores" que surgiram por nossa história. Julio Cortázar foi um deles. Em seu maravilhoso livro Histórias de Cronópios e de Famas, essa temática é bastante recorrente. Como por exemplo, o primeiro texto - Simulacro - do capítulo "Estranhas ocupações":

"Somos uma família estranha, Neste país onde as coisas se fazem por obrigação ou fanfarronada, gostamos das ocupações livres, das tarefas sem importância, dos simulacros que nada adiantam."

Outro exemplo maravilhoso é o seu Perda e Recuperação do Cabelo, que começa assim:

"Para lutar contra o pragmatismo e a horrível tendência à consecução de fins úteis, meu primo mais velho defende a prática de arrancar um bom fio de cabelo da cabeça, dar-lhe um nó no meio e deixá-lo cair suavemente pelo buraco da pia. Se o cabelo ficar preso no ralo que costuma haver nesses buracos, bastará abrir um pouco a torneira para que ele se perca de vista."

Bem, esta é a etapa da perda, a recuperação que se segue é que é o grande mote para o texto. Desmontar todo o sifão da pia, percorrer tubulações; comprar todos os apartamentos do prédio; mergulhar pelos esgotos da cidade. Tudo isso para recuperar o fio de cabelo perdido.

Sim, é um grande absurdo. Mas, para chamar atenção a um fato, nada melhor do que exagerá-lo. E é o que faz, em alguns casos, a ficção. Ela exagera as coisas, ela parece absurda em muitos casos, mas é esse o seu modo de chamar a atenção para questões e temas importantes da vida.

Muitos dirão: isso é utópico. E arte responde: sim, é utópico, mas necessário. Eduardo Galeano diz que a utopia é como o horizonte, você caminha, caminha, e nunca chega nele. Então para quê serve a utopia, ele responde: para caminhar, sempre!

O tema já foi tratado e explorado das mais variadas maneiras, mas não deixa de ser útil e atual. Enquanto não nos darmos conta de sua importância, enquanto não refletirmos acerca da necessidade de modificação deste tipo de relação, ele permanecerá, e com ele, o seu questionamento.

segunda-feira, 28 de abril de 2008

Partida

              Caros alunos, desculpem pela partida meio repentina. Imaginei que tivéssemos uma ou duas aulas mais mas não contei o feriado do dia 21 de abril. Programaticamente foi mais interessante que a professora Priscila assumisse já a partir desta segunda 28, para que vocês não tivessem que mudar de esquema de aula no meio da abordagem de uma obra. Assim ela poderia começar com vocês partindo de um novo livro, ficando melhor para todos.
             Desejo que vocês enfrentem com tranqüilidade essa fase vestibular e que conquistem as vagas que desejarem. É só dar uma raladinha agora que depois fica tudo certo. 
            Acho que é isso. Aproveitem a vida que ela é uma só (ou não?).

Abraços

Conrado.

ps: continuarei deixando algumas coisas neste blog. se quiserem acompanhar....

sábado, 26 de abril de 2008

Algum tempo depois...

     Desculpem o intervalo dado entre a última e essa nova postagem. Muitas coisas para fazer. O mundo girando sem parar. Mas vamos lá.
    Em nosso último encontro retomamos a leitura das Memórias de um sargento de milícias abordando-a através de uma das interpretações mais difundidas desta obra. Este ensaio interpretativo foi escrito pelo crítico Antonio Candido e é uma das principais fontes para se compreender um pouco mais o livro de Manuel Antonio. Trata-se do texto "Dialética da Malandragem" que vocês encontram reproduzido na apostila de vocês. Leiam....
    Começamos a aula discutindo um pouco sobre o gênero Picaresco, oriundo da Espanha, mas muito difundido na Europa. Como exemplo disso, li com vocês um trechinho da História de Gil Blas de Santillana, escrita pelo francês Alain René Lesage entre os anos de 1715-1735. Em seguida lemos um trecho das Memórias com o fim de evidenciar os elementos que se assemelham e os que o afastam do gênero em questão.
   Como mencionei a vocês, uma das principais diferenças entre um e outro relaciona-se à natureza do narrador. Se no romance picaresco é o próprio pícaro que conta suas desventuras, nas Memórias a história é contada em terceira pessoa, por um narrador que não se identifica, ampliando, dessa forma, o horizonte do leitor. Além disso o herói das memórias é um personagem como os demais o que o distancia do picaresco no qual o herói assume toda a cena narrativa.
      Feitas as distinções passamos a observar alguns elementos que se apresentam no romance e que nos remetem a formas das narrativas folclóricas, dos contos de fadas. Isso já nos é dado logo quando iniciamos a leitura  e nos deparamos com o "Era no tempo do rei", que se assemelha muito da clássica "Era uma vez" das narrativas infantis. Vimos que as personagens também podem ser aproximadas das personagens encontradas no tipo de narrativa em questão.
  Depois disso discutimos um pouco sobre o caráter "documental" apresentado pelas Memórias, que levou muitos intérpretes a considerá-la uma obra pré-realista. O que, como vimos, não é tão simples assim. Se por um lado Manuel Antonio nos apresenta muitos aspectos da vida social da época, por outro omite também muitos outros, como os que apresentei a vocês ao mencionar a ausência de figuras representantes das duas principais estratificações sociais da época: os negros, e os representantes das classes de mando. Sugeri a vocês que observassem as reproduções de Debret para pensar um pouco sobre a questão colocada - se vocês ainda não viram, vejam, no site da biblioteca virtual da usp-.
     Passado isso, fomos então ao cerne da questão colocada neste ensaio sobre a obra de Manuel Antonio de Almeida. Segundo Antonio Candido, este livro se estrutura através de uma relação dialética entre Ordem e Desordem. Mas, o que é essa tal dialética? Bem, não pretendo esclarecer um tema filosófico tão debatido e discutido durante séculos - mesmo porque não sou filósofo - mas, tomemos lá o exemplo do filósofo Hegel.  Na dialética hegeliana encontramos a tentativa de se explicar a realidade através do choque de elementos que se opõem. Esquematicamente ela se estrutura atarvés de uma Tese, que é combatida por uma Antitese e desse embate gera um terceiro elemento, a Síntese.
      E o que isso tem a ver com o romance? Bem, tentei evidenciar a vocês como se estrutura o sistema de relações que encontramos representado no livro. Disse que a maior parte deles se apresenta num jogo de tensão entre Ordem e Desordem, apresentando traços ora positivos, ora negativos. O embate entre esses dois pólos gerará um terceiro elemento. Exemplifiquei isso a vocês ao vermos como isso se manifesta em algumas personagens. Por exemplo, o Major Vidigal, que figura como elemento perfeito do plano da Ordem, num outro momento, ao ser revelado seus amores com Maria Regalada, cai para o plano da Desordem. Essa tensão gerará sua síntese através da decisão do Major de soltar Leonardo e o promover a sargento de milícias. Esse é apenas um dos exemplos. Veremos isso se manifestar em vários outros personagens. Leiam com atenção que vocês logo perceberão.

acho que é isso

Abraços

quinta-feira, 10 de abril de 2008

A Cantiga e o início da literatura portuguesa

A literatura portuguesa tem sua origem na denominada 1ª época medieval, que se estende de 1198 a 1434. Nessa época temos configurado basicamente duas grandes manifestações: a Arte Trovadoresca, representada pelas Cantigas, e a prosa que se manifesta através das Crônicas de Fernão Lopes - consideradas como o início da historiografia em língua portuguesa.

Como nos interessa, neste pequeno resumo, apenas as Cantigas, vamos a elas. O "marco zero" da literatura em língua portuguesa dá-se através da mui famosa Cantiga de Ribeirinha, composta pelo trovador Paio Soares de Taveirós, no ano de 1198 da graça de deus. No entanto, essa tradição trovadoresca não surge com ele. Esta é, de certo modo, uma cultura altamente difundida na europa medieval e pode-se localizar suas manifestações na Itália, Alemanha, Espanha e França.

Este último país gestou dois dos maiores representantes desta modalidade artística, cuja força criativa é mencionada e estudada ainda em nossos dias. Os poetas provençais - eram assim chamados por serem oriundos da Provença, região localizada ao sul da França - alcançarm alto prestígio em sua época e tiveram penetração em várias gerações posteriores. Seus nomes: Arnaut Daniel e Rimbaut D'Aurenga. Só para se ter uma idéia, o primeiro deles era muito admirado por Dante - o grande poeta florentino, criador da famosa Divina Comédia, obra na qual, em um de seus episódios, menciona o encontro com o poeta provençal e este encontro é descrito na língua de Arnaut - . Além de Dante, outro grande poeta admirador da arte de Arnaut, foi Petrarca, que se referia a ele como o grande mestre do amor. Séculos mais tarde T.S. Eliot, fará referências ao poeta em sua obra The Waste Land. 

Essa cultura trovadoresca vai então estimular o imaginário dos poetas galego-portugueses e será muito difundida em Portugal e Espanha.

Quanto à sua forma, devemos observar primeiramente a relação intrínseca que se estabelece entre música e poesia. O poema não pode ser pensado afastado daquela pois deverá sempre ser acompanhado por ela. Se observarmos qualquer imagem referente ao trovador medieval - seja em gravuras ou em filmes sobre a época (lembrem-se de ver o Sétimo Selo, de Bergmann), veremos que este sempre é apresentado empunhando um instrumento musical - geralmente o alaúde, um instrumento de cordas que lembra um bandolim ou algo do gênero -. 

Estes poemas se apresentavam geralmente em três estrofes, constituídas de 4 ou 7 versos (neste caso a Redondilha que vimos na aula passada; e por isso também conhecida como medida velha na época de Gil Vicente)cada. Outro elemento bastante comum neste tipo de composição foi o Paralelismo, ou seja, a reiteração da mesma idéia ou do mesmo verso nas diversas estrofes do poema.

Estas Cantigas eram classificadas de acordo com seu assunto e estrutura social na qual se encontravam desenvolvidas. As Cantigas D'amigo davam-se em ambientes campestres e urbanos, afastados da côrte e tratavam de temas exclusivamente amorosos onde se enfatizava o sentimento da Coita, ou seja, o sofrimento, mágoa, ou desilusão amorosa (por isso dizemos ainda hoje coitado - aquele que sofreu a coita). Geralmente narrava a história de uma donzela que sofria pelo retorno, ou pela ausência do amado. Por este motivo a predominância do Eu lírico feminino - apesar de, na maior parte dos casos ser composta e cantada por homens.

As Cantigas D'amigo apresentavam uma outra divisão que se refereia ao local ou situação no qual se desenvolviam. Se se desdobravam em ambientes rústicos, campestres, dava-se o nome de Pastorelas. Quando tinham como cenário peregrinações ou procissões - onde muitas vezes se dava o encontro com o amado - levavam o nome de Romarias. Se se desenvolviam em ambientes de bailes e festas, Bailada  e por fim, quando se tratava de assuntos ligados à vida marítima, Barcarolas ou, simplesmente, Marinhas.

Quando as canções se apresentavam dentro do refinado ambiente palaciano, chamavam-se Cantigas D'amor. Nestas encontramos a presença do famoso amor cortês - onde o eu lírico será predomiantemente masculino  -, onde o trovador se resigna e expressa suas aflições por sua paixão proibida que se endereçava a uma senhora da aristocracia.

Quando essas cantigas apresentavam caráter satírico, dividiam-se em: Cantigas de Escárnio e Cantigas de Maldizer. Ambas apresentavam um traço em comum: manifestavam-se através do ataque e da crítica. O que as diferenciava era o fato de que quando este ataque se dirigia indiretamente ao alvo, através do sarcasmo e da ironia, era considerada como Cantiga de Escárnio e quando se fazia de modo direto, considerava-se a cantiga de Maldizer.

* pensem nas aproximações que podem ser feitas entre as cantigas e a obra de Gil Vicente que vimos na aula anterior. Vocês perceberão que alguns elementos que constituem as cantigas estarão presentes também na obra do poeta.

** não se esqueçam que este é apenas um resumo, leiam mais informações sobre o assunto na apostila, ou consultem: Presença da Literatura Portuguesa - Era Medieval, de Segismundo Espina, ou, A Literatura Portuguesa Através dos Textos, de Massaud Moisés.

quarta-feira, 9 de abril de 2008

Aula 5

Na aula passada vimos alguns aspectos da obra de Gil Vicente e, em especial, questões relacionadas ao Auto da Barca do Inferno.
Iniciamos a aula tratando dos aspectos formais da obra. Tratamos então do Auto enquanto gênero. Disse a vocês que este vinculava-se a duas outras formas de composição: os Mistérios, que se ocupava de cenas e episódios bíblicos, e as Moralidades, gênero que se ocupava em tratar das virtudes e vícios.
Neste ponto falei sobre as influências sofridas por Gil Vicente pelo espanhol Juan del Encina, um dos cultores do gênero na Espanha. Vimos também as contribuições dadas por Gil Vicente na recuperação das Cantigas, que foram recolhidas no Cancioneiro Geral de Garcia de Rezende.
Passamos então ao estudo da Alegoria que, como disse na aula, é uma espécie de concretização de idéias, figuras ou entidades abstratas que se dá através de imagens. Ilustramos isso através da leitura de um trecho do Gargântua, de Rabelais e também pela leitura do próprio Auto de Gil Vicente. Disse ainda que  esse caráter alegórico marca boa parte da produção do autor. No caso, a alegoria é utilizada como meio de crítica social.
Nesse aspecto vimos que a sátira é um dos instrumentos de que se vale o poeta para levar a cabo sua crítica à sociedade. A sátira apresenta caráter ofensivo na crítica às instituições ou às pessoas e ataca os "males" sociais e os vícios morais dos indivíduos. Deste modo a sátira social se efetua através da crítica dos tipos sociais que compunham a sociedade portuguesa da época. Através de alguns exemplos, vimos como se caracterizam esses tipos sociais para posteriormente observar como são trabalhados por Gil Vicente no seu Auto da Barca do Inferno. Ainda com relação a esses tipos sociais, vimos que se apresentam de maneira caricatural, exagerando-se em alguns traços afim de torná-los mais salientes e conferindo, deste modo, um aspecto cômico às personagens.
A multiplicidade de temas abordados pelo autor manifesta-se também no aspecto formal. Gil Vicente rompe com o teatro clássico e com sua regra das três unidades - ação, tempo e espaço. Além disso, afasta-se da dimensão psicológica atribuída em parte ao teatro grego, para se concentrar no ataque aos vícios morais. Mescla gêneros diversos - como ficou dito anteriormente com relação ao auto - para tratar de questões universais. 
Vimos ainda que é possível verificar elementos religiosos em sua obra. Não trata diretamente destes temas como o tratavam, por exemplo, o teatro litúrgico - encenado no interior das igrejas no intuito de propagar a fé cristã - mas há nele um tom moralizante orientado pelos princípios da igreja católica.
Vimos com alguma ênfase o anticlericalismo presente em Gil Vicente, ao ler o trecho em que o Frade é recebido pelo diabo em sua barca. Como pudemos perceber, esse anticlericalismo se manifestou em diversas narrativas. Lemos um trecho do Decameron - de Boccaccio - onde o tema se manifestava já no século XIV. Esse anticlericalismo não foi gratuito pois, como vimos, essa era uma das classes que mais se aproveitava do poder, se excedendo no mundanismo contra o qual a própria religião e seus representantes deveriam se instar.
Não nos esqueçamos também do esquema de versificação privilegiado por Gil Vicente: a Redondilha - também conhecida como medida antiga - que se dividia em Maior - quando apresentava sete sílabas poéticas - e Menor - quando com apenas cinco sílabas.